O IV <em>Reich</em> fala inglês
O Irão continua a ser tema de um bombardeamento mediático intenso. A campanha aumentou muito nas últimas semanas assumindo aspectos patológicos. O presidente Bush, o secretário Rumsfeld, a senhorita Condoleeza Rice, senadores estadunidenses, o porta-voz da Casa Branca despejam sobre o mundo declarações, entrevistas, alertas sobre o perigo iraniano. Na opinião deles, unânime, a ameaça representada para a segurança dos EUA e da humanidade pelo programa nuclear daquele país asiático é tão grave que se torna urgente aplicar-lhe sanções através da ONU e recorrer eventualmente à força se o governo de Teerão não ceder.
Na Casa Branca, George Bush vai mais longe. Levanta já como solução para «a crise» o uso de armas nucleares tácticas.
Na Europa, Chirac, Tony Blair e a chanceler Merkel apoiam o discurso guerreiro de Washington. Afirmam estar também alarmados com a ameaça iraniana. A campanha lembra a que precedeu a agressão ao Iraque há dois anos, mas é ainda mais estrondosa.
As semelhanças são transparentes. Na época o Iraque era apontado como ameaça à segurança da humanidade (e em especial dos EUA) porque, segundo Bush e sua gente, tinha acumulado um enorme arsenal de armas de extermínio maciço. O presidente americano e Blair afirmavam ter provas. O Iraque merecia um castigo exemplar porque desafiaria resoluções do Conselho de Segurança. O exército do Iraque era apresentado como um dos mais poderosos do mundo.
O secretário de Estado Colin Powel foi ao Conselho de Segurança lançar um apelo patético à cruzada contra as forças do mal encarnadas então na Terra por Saddam Hussein, o Satã do Islão, o Hitler do século XXI. Mas o Conselho de Segurança desaprovou a guerra.
A decisão havia sido tomada com larga antecedência. O Iraque foi invadido, bombardeado, as suas cidades destruídas. Choveram mísseis e bombas sobre ruínas de civilizações milenárias e museus que eram património da humanidade foram saqueados pela soldadesca americana. As Forças Armadas dos EUA imitaram as SS nazis ao introduzirem a tortura como rotina nas prisões do país.
Transcorreram mais de dois anos. O próprio Bush confessa hoje que, afinal, não havia no Iraque armas de extermínio maciço. No genocídio iraquiano já morreram 300 000 civis – segundo fontes norte-americanas – mas o presidente dos EUA reafirma que a guerra foi justa e desencadeada em defesa da civilização contra a barbárie.
Omite que a guerra está perdida. O povo do Iraque levanta-se contra a ocupação. Washington não reconhece que esse povo actua como herói colectivo, assumindo valores eternos da condição humana. Não. Bush insiste na mentira e percorre os EUA bradando que está a construir a democracia no Iraque.
O Afeganistão é cenário caótico de outra guerra perdida. O exército americano atingiu ali um tal nível de desmoralização nas províncias da fronteira do Paquistão que Washington – onde permanece viva a síndrome vietnamita – quer retirar as suas tropas do país e entregar as responsabilidades da ocupação e da luta aos aliados europeus da NATO.
O mesmo filme
O aparelho de propaganda do sistema de poder dos EUA sempre evidenciou falta de imaginação.
Na campanha contra o Irão, o estilo do discurso, os argumentos, a adjectivação agressiva recordam monotonamente os da ofensiva anti-iraquiana.
Antes, a justificação para agredir vinha das armas de extinção maciça; agora Washington grita que o Irão quer o urânio enriquecido para produzir armas nucleares. Isso apesar de até o Sr. Baradei, da Agencia Internacional da Energia Atómica (um suave instrumento do imperialismo) ter afirmado repetidamente que não há quaisquer indícios disso.
Antes Sadam era demonizado. Agora o presidente Amadinejahad é servido aos americanos como um fanático, um ser irracional. Também lhe chamam já «o Hitler do Islão».
Foi suficiente o Irão ter apresentado em parada um míssil de produção nacional para que o Departamento de Estado e o Pentágono inundassem a comunicação social com informações sobre o gigantismo militar do país como ameaça à paz.
Não é segredo que nos EUA, antes do início da agressão ao Iraque, já haviam sido elaborados – com diferentes versões – planos prevendo uma guerra cujo objectivo seria retomar ali o controlo do poder perdido após o derrubamento do Xá Reza Pahlevi e a vitória da Revolução islâmica liderada pelo ayatollah Komeini. Documentação abundante sobre o assunto foi divulgada por jornais de Nova Iorque.
Muito recentemente tropas americanas e britânicas realizaram manobras, prevendo um cenário de guerra contra uns país da bacia do Cáspio. A bom entendedor…
O que Bush e o seu staff não previram foi o efeito que produziu no Pentágono a cadeia de fracassos militares no Iraque.
O exército dos EUA – como recordou em trabalho encomendado pelo Departamento de Defesa, o general Andrew Kripenevich (r) – atravessa uma crise gravíssima. A indisciplina alastra, o número de observações suscita alarme, e o moral dos soldados no Iraque e Afeganistão é muito baixo.
Neste contexto, o Estado-maior Conjunto informou Bush de que não há condições mínimas para iniciar uma guerra convencional contra o Irão. O projecto menos ambicioso de um ataque cujo objectivo fosse somente a ocupação da Província do Kuzistao, rica em petróleo, foi também rejeitado pelo Pentágono.
O estado de espírito dominante no corpo de oficiais encontra-se de certa maneira expresso nas tomadas de posição do general Clark, ex- comandante-chefe da Nato, e num documento assinado por seis destacados generais reformados. Todos criticam a política que levou à guerra do Iraque, definem Rumsfeld como um incapaz e pedem o seu afastamento.
A consciência de que uma invasão do Irão não é viável levou Bush a admitir a opção nuclear. Mas tudo indica que a ideia não encontra também receptividade no Pentágono.
Os militares sabem que não há armas atómicas limpas e o eventual ataque nuclear ao Irão poderia ser o estopim de uma crise mundial de consequências imprevisíveis. Os povos do mundo não esqueceram Hiroshima e Nagasaki.
Munique invertido
A maior parte da humanidade ainda não percebeu que, transcorridos quase 80 anos, as actuais gerações enfrentam ameaças que trazem à memória a situação criada na Europa quando Hitler subiu ao poder. O III Reich sob a sua direcção transformou-se em instrumento de uma política expansionista de dominação imperial cujo desfecho foi uma guerra em que morreram 40 milhões de pessoas.
A Inglaterra e a França, que eram então as grandes potências vencedoras da Guerra de 14-18 e tinham imposto à Alemanha derrotada o Tratado de Versailles, foram acumulando cedências ao Reich nazi, na esperança de evitar uma nova conflagração. Assistiram passivas à anexação da Áustria e permitiram que a ajuda alemã a Franco fosse decisiva para a destruição da Espanha Republicana. Mas a gula de Hitler era insaciável.
Em 38 passou a exigir os Sudetos à Checoslováquia.
A União Soviética estava disposta a defender aquele país se a França e Inglaterra se comprometessem com ela a conter Hitler. Mas Chamberlain e Daladier optaram pela capitulação. Os povos da Europa temiam a guerra e as democracias ocidentais acreditaram que cedendo às exigências do Reich nazi estavam a preservar a paz. Tremendo erro. O Acordo de Munique foi o prólogo de uma tragédia.
A Alemanha não tardou a engolir a Checoslováquia inteira. Depois o alvo passou a ser a Polónia cuja invasão assinalou o começo da II Guerra Mundial.
Onde as semelhanças com a actual crise, perguntarão os leitores?
Elas são evidentes, com peculiaridades que dificultam à humanidade a compreensão de que está a ser empurrada para um possível apocalipse.
A situação criada pode ser definida como um Munique às avessas.
No final dos anos 30, o III Reich, a sua ideologia e o Fuhrer que exercia um poder absoluto, inspiravam aos povos medo e repulsa. O nazismo proclamava a superioridade dos alemães sobre as raças ditas inferiores, perseguia os judeus, queimava livros em autos de fé culturais, fazia a apologia da guerra como instrumento indispensável à conquista do «espaço vital», ou seja a expansão territorial da Alemanha.
A propaganda do III Reich não funcionava. A nível mundial, mesmo após a derrota da França, quando a Wehrmacht ocupava quase toda a Europa e estava às portas de Moscovo, a simpatia dos povos, a nível internacional, ia para as vítimas da Alemanha nazi e para os países – como a URSS e a Inglaterra – que lutavam contra Hitler.
O panorama oferecido pelo mundo, hoje, no quadro da crise de civilização que se aprofunda é muito diferente.
Os EUA são um país com instituições formalmente democráticas. Apresentam-se como um modelo de democracia, quase como a sociedade ideal, uma terra de liberdade onde os direitos do homem seriam plenamente respeitados. Uma propaganda insidiosa projecta deles a imagem de um Estado que se assume como o campeão da democracia e o seu defensor onde quer ela seja ameaçada. Os inimigos da liberdade, os vilões da História seriam todos aqueles que rejeitam a ordem internacional imposta por Washington, e reivindicam o direito de construir o seu próprio futuro.
Uma parcela importante da humanidade, impressionada pelo poder e riqueza dos EUA, tem demonstrado incapacidade para descodificar o discurso americano.
E o que acontece?
Permanece passiva perante o desenvolvimento da estratégia de um sistema de poder que assume cada vez mais contornos neofascistas.
Terrorismo de Estado
A extrema-direita norte-americana, hoje no poder, não tem soluções para a crise estrutural do capitalismo no seu principal baluarte, os EUA. Optou assim por uma política imperial dita de «guerras preventivas» e de saque dos recursos naturais de países do Terceiro Mundo.
O desaparecimento da União Soviética deixou Washington de mãos livres.
Primeiro foi a Guerra do Golfo. Depois as agressões aos povos do Afeganistão e do Iraque.
Em nome da democracia e da liberdade, da defesa da civilização, amplas regiões do Médio Oriente foram bombardeadas e transformadas em colónias de novo tipo, onde Washington colocou governos fantoches.
Proclamando combater o terrorismo, os EUA praticam um terrorismo de Estado sem precedentes.
O Irão acha-se agora na linha de mira do sistema de poder neonazi dos EUA. É simultaneamente patético e ridículo escutar os discursos de George Bush bolsando injúrias e calúnias contra o povo de Omar Kayan.
Um presidente que barbariza o seu próprio idioma invoca a defesa da civilização contra a barbárie para ameaçar com armas nucleares um povo com 25 séculos de História cuja contribuição para o progresso da humanidade é sob muitos aspectos comparável à da Grécia e Roma.
Nesta crise que – repito traz a memória um Munique às avessas – o político que desempenha o papel de Hitler exibe-se, porém, como o benfeitor da humanidade, a nação que ele pretende bombardear. Esta, a vítima, é pintada como a fonte do mal, inclusive como um perigo enorme para a segurança dos EUA.
A inversão dos papéis não impede, sejamos realistas, que centenas de milhões de pessoas em dezenas de países atribuam alguma credibilidade à mensagem fundamental que Bush transmite. O controle hegemónico da comunicação social por um punhado de transnacionais permite ao imperialismo uma manipulação das consciências que produz efeitos no comportamento dos povos. Nunca houve tanta informação disponível, mas nunca a humanidade esteve tão desinformada.
A deturpação da História, preparada com minúcias laboratoriais, atinge tais extremos que até cidadãos progressistas, contaminados pelo massacre mediático acabam por absorver retratos falsos de conflitos longínquos. Isso acontece com Cuba, ocorreu com as guerras do Iraque e do Afeganistão. Os combatentes que resistem naqueles países à ocupação são sistematicamente qualificados de rebeldes, fanáticos, terroristas. Nas Palestina os bons são os israelitas, os maus os que lutam ali pela liberdade do seu povo. Na Colômbia as FARC, uma guerrilha heróica, autêntico exército do povo, é tratada como bando de narcotraficantes e criminosos.
Trabalhar para o desmascaramento da engrenagem da mentira, usada como arma poderosa pelo imperialismo, tornou-se hoje uma tarefa prioritária para as forças progressistas que se batem, em defesa da humanidade, contra um sistema de poder monstruoso que – não há que temer a expressão – actua já como um IV Reich na execução da sua estratégia de dominação planetária.
É difícil? Muito. Mas a dimensão da crise de civilização que vivemos vai exigir da humanidade, para sobreviver à ameaça da barbárie imperial estadunidense, um esforço gigantesco. Ao longo da História durante grandes crises o homem enfrentou impossíveis aparentes para as superar. E conseguiu.
Solidariedade com o Irão
Os acontecimentos da França carregam um convite à reflexão.
O desfecho das lutas sociais de Março e Abril confirmou que é o povo o sujeito da História. A juventude e os trabalhadores alcançaram ali uma vitória que as classes dominantes julgavam fora do seu alcance. Daí o pânico da burguesia.
Forçaram o poder a revogar uma lei reaccionária que facilitava o desemprego. O diploma já havia sido aprovado pelo Parlamento e promulgado pelo presidente Chirac.
O povo da França mobilizou-se contra essa lei. No final de Março, 3 milhões de pessoas saíram às ruas num protesto gigantesco. A direita apresentou fissuras, mas o governo não cedeu e intensificou as medidas repressivas. Uma semana depois, a 4 de Março as manifestações repetiram-se. O Não à lei repudiada mobilizou outra vez 3 milhões de cidadãos. E aconteceu aquilo que alarmou as burguesias de todo o mundo. O Poder capitulou, revogando a lei.
A lição do confronto é aplicável às lutas que opõem a humanidade ao imperialismo.
Na França existiam condições objectivas e subjectivas. Um povo adulto, instruído, com um padrão de vida médio muito elevado (salário mínimo líquido de 1200 euros) mobilizou-se em defesa de direitos fundamentais ameaçados.
A nível mundial as condições objectivas para o combate ao imperialismo são muito mais favoráveis do que na França. Os povos arriscam muito menos na luta do que o francês. Mas as condições subjectivas são, com poucas excepções, insuficientes ou quase inexistentes. As grandes maiorias não compreendem que a estratégia imperial dos EUA se insere hoje num projecto planetário de matizes neofascistas.
Munique foi o prólogo da mais trágica das guerras. Não perceber que «as guerras preventivas» do Afeganistão e do Iraque foram apenas etapas de uma escalada de violência irracional, é assistir passivamente à execução de um projecto monstruoso que ameaça a humanidade. O Irão surge no horizonte como o próximo objectivo do sistema de poder neofascista implantado nos EUA pela extrema-direita.
É preciso que os povos assimilem essa evidência. As grandes lutas da humanidade passam nestes dias pela solidariedade com o Irão.
Colocar esse desafio na consciência de centenas de milhões de homens e mulheres, na Europa, na América, na Ásia, na África, na Oceânia é ocupar um posto de combate na trincheira a erguer para cortar o passo ao IV Reich em formação.
As semelhanças são transparentes. Na época o Iraque era apontado como ameaça à segurança da humanidade (e em especial dos EUA) porque, segundo Bush e sua gente, tinha acumulado um enorme arsenal de armas de extermínio maciço. O presidente americano e Blair afirmavam ter provas. O Iraque merecia um castigo exemplar porque desafiaria resoluções do Conselho de Segurança. O exército do Iraque era apresentado como um dos mais poderosos do mundo.
O secretário de Estado Colin Powel foi ao Conselho de Segurança lançar um apelo patético à cruzada contra as forças do mal encarnadas então na Terra por Saddam Hussein, o Satã do Islão, o Hitler do século XXI. Mas o Conselho de Segurança desaprovou a guerra.
A decisão havia sido tomada com larga antecedência. O Iraque foi invadido, bombardeado, as suas cidades destruídas. Choveram mísseis e bombas sobre ruínas de civilizações milenárias e museus que eram património da humanidade foram saqueados pela soldadesca americana. As Forças Armadas dos EUA imitaram as SS nazis ao introduzirem a tortura como rotina nas prisões do país.
Transcorreram mais de dois anos. O próprio Bush confessa hoje que, afinal, não havia no Iraque armas de extermínio maciço. No genocídio iraquiano já morreram 300 000 civis – segundo fontes norte-americanas – mas o presidente dos EUA reafirma que a guerra foi justa e desencadeada em defesa da civilização contra a barbárie.
Omite que a guerra está perdida. O povo do Iraque levanta-se contra a ocupação. Washington não reconhece que esse povo actua como herói colectivo, assumindo valores eternos da condição humana. Não. Bush insiste na mentira e percorre os EUA bradando que está a construir a democracia no Iraque.
O Afeganistão é cenário caótico de outra guerra perdida. O exército americano atingiu ali um tal nível de desmoralização nas províncias da fronteira do Paquistão que Washington – onde permanece viva a síndrome vietnamita – quer retirar as suas tropas do país e entregar as responsabilidades da ocupação e da luta aos aliados europeus da NATO.
O mesmo filme
O aparelho de propaganda do sistema de poder dos EUA sempre evidenciou falta de imaginação.
Na campanha contra o Irão, o estilo do discurso, os argumentos, a adjectivação agressiva recordam monotonamente os da ofensiva anti-iraquiana.
Antes, a justificação para agredir vinha das armas de extinção maciça; agora Washington grita que o Irão quer o urânio enriquecido para produzir armas nucleares. Isso apesar de até o Sr. Baradei, da Agencia Internacional da Energia Atómica (um suave instrumento do imperialismo) ter afirmado repetidamente que não há quaisquer indícios disso.
Antes Sadam era demonizado. Agora o presidente Amadinejahad é servido aos americanos como um fanático, um ser irracional. Também lhe chamam já «o Hitler do Islão».
Foi suficiente o Irão ter apresentado em parada um míssil de produção nacional para que o Departamento de Estado e o Pentágono inundassem a comunicação social com informações sobre o gigantismo militar do país como ameaça à paz.
Não é segredo que nos EUA, antes do início da agressão ao Iraque, já haviam sido elaborados – com diferentes versões – planos prevendo uma guerra cujo objectivo seria retomar ali o controlo do poder perdido após o derrubamento do Xá Reza Pahlevi e a vitória da Revolução islâmica liderada pelo ayatollah Komeini. Documentação abundante sobre o assunto foi divulgada por jornais de Nova Iorque.
Muito recentemente tropas americanas e britânicas realizaram manobras, prevendo um cenário de guerra contra uns país da bacia do Cáspio. A bom entendedor…
O que Bush e o seu staff não previram foi o efeito que produziu no Pentágono a cadeia de fracassos militares no Iraque.
O exército dos EUA – como recordou em trabalho encomendado pelo Departamento de Defesa, o general Andrew Kripenevich (r) – atravessa uma crise gravíssima. A indisciplina alastra, o número de observações suscita alarme, e o moral dos soldados no Iraque e Afeganistão é muito baixo.
Neste contexto, o Estado-maior Conjunto informou Bush de que não há condições mínimas para iniciar uma guerra convencional contra o Irão. O projecto menos ambicioso de um ataque cujo objectivo fosse somente a ocupação da Província do Kuzistao, rica em petróleo, foi também rejeitado pelo Pentágono.
O estado de espírito dominante no corpo de oficiais encontra-se de certa maneira expresso nas tomadas de posição do general Clark, ex- comandante-chefe da Nato, e num documento assinado por seis destacados generais reformados. Todos criticam a política que levou à guerra do Iraque, definem Rumsfeld como um incapaz e pedem o seu afastamento.
A consciência de que uma invasão do Irão não é viável levou Bush a admitir a opção nuclear. Mas tudo indica que a ideia não encontra também receptividade no Pentágono.
Os militares sabem que não há armas atómicas limpas e o eventual ataque nuclear ao Irão poderia ser o estopim de uma crise mundial de consequências imprevisíveis. Os povos do mundo não esqueceram Hiroshima e Nagasaki.
Munique invertido
A maior parte da humanidade ainda não percebeu que, transcorridos quase 80 anos, as actuais gerações enfrentam ameaças que trazem à memória a situação criada na Europa quando Hitler subiu ao poder. O III Reich sob a sua direcção transformou-se em instrumento de uma política expansionista de dominação imperial cujo desfecho foi uma guerra em que morreram 40 milhões de pessoas.
A Inglaterra e a França, que eram então as grandes potências vencedoras da Guerra de 14-18 e tinham imposto à Alemanha derrotada o Tratado de Versailles, foram acumulando cedências ao Reich nazi, na esperança de evitar uma nova conflagração. Assistiram passivas à anexação da Áustria e permitiram que a ajuda alemã a Franco fosse decisiva para a destruição da Espanha Republicana. Mas a gula de Hitler era insaciável.
Em 38 passou a exigir os Sudetos à Checoslováquia.
A União Soviética estava disposta a defender aquele país se a França e Inglaterra se comprometessem com ela a conter Hitler. Mas Chamberlain e Daladier optaram pela capitulação. Os povos da Europa temiam a guerra e as democracias ocidentais acreditaram que cedendo às exigências do Reich nazi estavam a preservar a paz. Tremendo erro. O Acordo de Munique foi o prólogo de uma tragédia.
A Alemanha não tardou a engolir a Checoslováquia inteira. Depois o alvo passou a ser a Polónia cuja invasão assinalou o começo da II Guerra Mundial.
Onde as semelhanças com a actual crise, perguntarão os leitores?
Elas são evidentes, com peculiaridades que dificultam à humanidade a compreensão de que está a ser empurrada para um possível apocalipse.
A situação criada pode ser definida como um Munique às avessas.
No final dos anos 30, o III Reich, a sua ideologia e o Fuhrer que exercia um poder absoluto, inspiravam aos povos medo e repulsa. O nazismo proclamava a superioridade dos alemães sobre as raças ditas inferiores, perseguia os judeus, queimava livros em autos de fé culturais, fazia a apologia da guerra como instrumento indispensável à conquista do «espaço vital», ou seja a expansão territorial da Alemanha.
A propaganda do III Reich não funcionava. A nível mundial, mesmo após a derrota da França, quando a Wehrmacht ocupava quase toda a Europa e estava às portas de Moscovo, a simpatia dos povos, a nível internacional, ia para as vítimas da Alemanha nazi e para os países – como a URSS e a Inglaterra – que lutavam contra Hitler.
O panorama oferecido pelo mundo, hoje, no quadro da crise de civilização que se aprofunda é muito diferente.
Os EUA são um país com instituições formalmente democráticas. Apresentam-se como um modelo de democracia, quase como a sociedade ideal, uma terra de liberdade onde os direitos do homem seriam plenamente respeitados. Uma propaganda insidiosa projecta deles a imagem de um Estado que se assume como o campeão da democracia e o seu defensor onde quer ela seja ameaçada. Os inimigos da liberdade, os vilões da História seriam todos aqueles que rejeitam a ordem internacional imposta por Washington, e reivindicam o direito de construir o seu próprio futuro.
Uma parcela importante da humanidade, impressionada pelo poder e riqueza dos EUA, tem demonstrado incapacidade para descodificar o discurso americano.
E o que acontece?
Permanece passiva perante o desenvolvimento da estratégia de um sistema de poder que assume cada vez mais contornos neofascistas.
Terrorismo de Estado
A extrema-direita norte-americana, hoje no poder, não tem soluções para a crise estrutural do capitalismo no seu principal baluarte, os EUA. Optou assim por uma política imperial dita de «guerras preventivas» e de saque dos recursos naturais de países do Terceiro Mundo.
O desaparecimento da União Soviética deixou Washington de mãos livres.
Primeiro foi a Guerra do Golfo. Depois as agressões aos povos do Afeganistão e do Iraque.
Em nome da democracia e da liberdade, da defesa da civilização, amplas regiões do Médio Oriente foram bombardeadas e transformadas em colónias de novo tipo, onde Washington colocou governos fantoches.
Proclamando combater o terrorismo, os EUA praticam um terrorismo de Estado sem precedentes.
O Irão acha-se agora na linha de mira do sistema de poder neonazi dos EUA. É simultaneamente patético e ridículo escutar os discursos de George Bush bolsando injúrias e calúnias contra o povo de Omar Kayan.
Um presidente que barbariza o seu próprio idioma invoca a defesa da civilização contra a barbárie para ameaçar com armas nucleares um povo com 25 séculos de História cuja contribuição para o progresso da humanidade é sob muitos aspectos comparável à da Grécia e Roma.
Nesta crise que – repito traz a memória um Munique às avessas – o político que desempenha o papel de Hitler exibe-se, porém, como o benfeitor da humanidade, a nação que ele pretende bombardear. Esta, a vítima, é pintada como a fonte do mal, inclusive como um perigo enorme para a segurança dos EUA.
A inversão dos papéis não impede, sejamos realistas, que centenas de milhões de pessoas em dezenas de países atribuam alguma credibilidade à mensagem fundamental que Bush transmite. O controle hegemónico da comunicação social por um punhado de transnacionais permite ao imperialismo uma manipulação das consciências que produz efeitos no comportamento dos povos. Nunca houve tanta informação disponível, mas nunca a humanidade esteve tão desinformada.
A deturpação da História, preparada com minúcias laboratoriais, atinge tais extremos que até cidadãos progressistas, contaminados pelo massacre mediático acabam por absorver retratos falsos de conflitos longínquos. Isso acontece com Cuba, ocorreu com as guerras do Iraque e do Afeganistão. Os combatentes que resistem naqueles países à ocupação são sistematicamente qualificados de rebeldes, fanáticos, terroristas. Nas Palestina os bons são os israelitas, os maus os que lutam ali pela liberdade do seu povo. Na Colômbia as FARC, uma guerrilha heróica, autêntico exército do povo, é tratada como bando de narcotraficantes e criminosos.
Trabalhar para o desmascaramento da engrenagem da mentira, usada como arma poderosa pelo imperialismo, tornou-se hoje uma tarefa prioritária para as forças progressistas que se batem, em defesa da humanidade, contra um sistema de poder monstruoso que – não há que temer a expressão – actua já como um IV Reich na execução da sua estratégia de dominação planetária.
É difícil? Muito. Mas a dimensão da crise de civilização que vivemos vai exigir da humanidade, para sobreviver à ameaça da barbárie imperial estadunidense, um esforço gigantesco. Ao longo da História durante grandes crises o homem enfrentou impossíveis aparentes para as superar. E conseguiu.
Solidariedade com o Irão
Os acontecimentos da França carregam um convite à reflexão.
O desfecho das lutas sociais de Março e Abril confirmou que é o povo o sujeito da História. A juventude e os trabalhadores alcançaram ali uma vitória que as classes dominantes julgavam fora do seu alcance. Daí o pânico da burguesia.
Forçaram o poder a revogar uma lei reaccionária que facilitava o desemprego. O diploma já havia sido aprovado pelo Parlamento e promulgado pelo presidente Chirac.
O povo da França mobilizou-se contra essa lei. No final de Março, 3 milhões de pessoas saíram às ruas num protesto gigantesco. A direita apresentou fissuras, mas o governo não cedeu e intensificou as medidas repressivas. Uma semana depois, a 4 de Março as manifestações repetiram-se. O Não à lei repudiada mobilizou outra vez 3 milhões de cidadãos. E aconteceu aquilo que alarmou as burguesias de todo o mundo. O Poder capitulou, revogando a lei.
A lição do confronto é aplicável às lutas que opõem a humanidade ao imperialismo.
Na França existiam condições objectivas e subjectivas. Um povo adulto, instruído, com um padrão de vida médio muito elevado (salário mínimo líquido de 1200 euros) mobilizou-se em defesa de direitos fundamentais ameaçados.
A nível mundial as condições objectivas para o combate ao imperialismo são muito mais favoráveis do que na França. Os povos arriscam muito menos na luta do que o francês. Mas as condições subjectivas são, com poucas excepções, insuficientes ou quase inexistentes. As grandes maiorias não compreendem que a estratégia imperial dos EUA se insere hoje num projecto planetário de matizes neofascistas.
Munique foi o prólogo da mais trágica das guerras. Não perceber que «as guerras preventivas» do Afeganistão e do Iraque foram apenas etapas de uma escalada de violência irracional, é assistir passivamente à execução de um projecto monstruoso que ameaça a humanidade. O Irão surge no horizonte como o próximo objectivo do sistema de poder neofascista implantado nos EUA pela extrema-direita.
É preciso que os povos assimilem essa evidência. As grandes lutas da humanidade passam nestes dias pela solidariedade com o Irão.
Colocar esse desafio na consciência de centenas de milhões de homens e mulheres, na Europa, na América, na Ásia, na África, na Oceânia é ocupar um posto de combate na trincheira a erguer para cortar o passo ao IV Reich em formação.